Bono Vox: uma completa fraude?

“Como o vocalista do U2 e outros como ele são vistos como representantes dos pobres, os pobres não são convidados a falar.”

Em 2005, já foi ruim. Na cúpula do G8, na Escócia, Bono e Bob Geldof elogiaram Tony Blair e George Bush, que ainda estavam atolados na carnificina que haviam iniciado no Iraque. Em determinado ponto, Geldof parecia, literal e figurativamente, estar sentado no colo de Tony Blair. Ativistas africanos os acusaram de afogar uma campanha por justiça global, desvirtuando-a em uma campanha de caridade.

Mas isso aqui é pior. Enquanto o Reino Unido preside novamente a cúpula do G8, uma campanha fundada por Bono, e na qual Geldof trabalha, parece estar camuflando as políticas do G8 na África.

Na semana passada, chamei a atenção para a Nova Aliança para a Segurança Alimentar e Nutricional, lançada nos EUA quando eles presidiram a reunião do G8 no ano passado. A aliança está empurrando países africanos em acordos que permitem a empresas estrangeiras pegar suas terras, patentear suas sementes e monopolizar seus mercados de alimentos. Ignorando as vozes de seu próprio povo, seis governos africanos fecharam acordos com empresas como Monsanto, Cargill e Dupont em troca de promessas de ajuda por parte do Reino Unido e outras nações do G8.

Uma vasta gama de ativistas, tanto africanos quanto europeus, está furiosa com a Nova Aliança. Mas a campanha ONE, co-fundada por Bono, está defendendo-a. Seu artigo da semana passada foi marcante em vários aspectos: na exclusão dos interesses dos líderes africanos e os de seu povo, no exagero do papel das pequenas empresas africanas, mas acima de tudo, em sequer mencionar a injustiça no coração da nova Aliança – a promoção de uma nova onda de apropriação de terras. Minha curiosidade foi aguçada.

Bono-with-Obama

A primeira coisa que eu descobri é que Bono também elogiou a Nova Aliança em um discurso pouco antes da cúpula do G8 do ano passado nos EUA. A segunda coisa que eu descobri é que grande parte do financiamento principal da campanha ONE foi fornecido pela Fundação Bill e Melinda Gates, sendo que dois de seus executivos também estão na comissão executiva da ONE. A fundação trabalha com a empresa de biotecnologia Monsanto e a gigante negociadora de grãos Cargill, e tem ainda uma grande participação na Monsanto. Bill Gates respondeu a reivindicações feitas sobre apropriação de terras na África, afirmando, em face da evidência devastadora e da resistência maciça de agricultores africanos, que “muitos desses negócios da terra são benéficos, e seria muito ruim se alguns fossem retidos por causa do jeito de grupos ocidentais verem as coisas (Note que os africanos continuam de fora desta história).

A terceira coisa que eu descobri é que há uma longa história aqui. No seu brilhante e quentíssimo livro The Frontman: Bono (in the Name of Power), que acaba de ser lançado no Reino Unido, o estudioso irlandês Harry Browne afirma que “há quase três décadas como uma figura pública, Bono tem… amplificado discursos elitistas, defendido soluções ineficazes, sido condescendente com os pobres e beijado a bunda de ricos e poderosos”. Sua abordagem para a África é “uma mistura escorregadia de missionário tradicional e colonialismo comercial, em que o mundo pobre existe como uma tarefa para o mundo rico completar”.

Bono, Browne acusa, tornou-se “o cara afetuoso da tecnocracia global” que, sem qualquer tipo de mandato, assumiu o papel de porta-voz da África e depois usou esse papel para oferecer “cobertura humanitária” para os líderes ocidentais. Seu posicionamento, que coloca o oeste como o salvador da África e deixa de discutir o dano que nações do G8 estão provocando, minou campanhas por justiça e responsabilidade, enquanto legitimou o projeto neoliberal.

Bono afirma estar “representando as pessoas mais pobres e vulneráveis​​”. Mas, conversando com uma ampla gama de ativistas de ambos os mundos pobre e rico desde que a ONE publicou seu artigo na semana passada, eu ouvi a mesma reclamação continuamente: a de que Bono e outros como ele tomaram o espaço político que deveria ter sido ocupado pelos africanos sobre quem eles falam. Como Bono é visto por líderes mundiais como o representante dos pobres, os pobres não são convidados a falar. Isso funciona muito bem para todos – exceto para os pobres.

A campanha ONE me parece o tipo de organização que John le Carré ou Robert Harris poderiam ter inventado. Ela alega trabalhar em nome dos extremamente pobres, mas seu conselho é composto em grande parte por milionários, aristocratas corporativos e agentes norte-americanos. Aqui você vai encontrar Condoleezza Rice, a secretária de Estado e conselheira de segurança nacional de George W Bush, que promoveu agressivamente a guerra do Iraque, instruiu a CIA de que ela estava autorizada a usar técnicas de tortura e intimidou nações menores a suportar uma ampla gama de objetivos norte-americanos.

Aqui também temos Larry Summers, que foi economista-chefe do Banco Mundial durante os dias mais sombrios do ajuste estrutural e que, como secretário do Tesouro dos EUA, ajudou a desregulamentar Wall Street, com consequências tão felizes para o resto de nós. Temos ainda Howard Buffett, que já atuou no conselho da gigante mundial de grãos Archer Daniels Midland, bem como na Coca-Cola e nas corporações de alimentos ConAgra e Agro Tech. Embora o foco principal do ONE seja a África, há apenas dois membros africanos. Um deles é um barão da telefonia celular, e o outro é o Ministro das Finanças da Nigéria, que antes era diretor do Banco Mundial. Que melhores representantes dos extremamente pobres poderia haver?

Assim como Bono e seus companheiros de banda fizeram no Pyramid Stage, ativistas do grupo de ação direta Art Uncut inflaram um balão de 20 pés estampado com a mensagem “U Pay Your Tax 2?” (Vocês também pagam seus impostos?), expondo a evasão fiscal praticada pelo U2.

Se, como a ONE faz, uma organização continua dizendo que é uma “campanha popular”, muito provavelmente não é nada do tipo. Esta colaboração de multimilionários e tecnocratas me parece mais uma projeção dos EUA e do poder corporativo.

Achei igualmente revoltante ver Bono na semana passada pedindo “mais progressos na transparência”. Como Harry Browne nos lembra, a complexa rede de empresas do U2, os acordos financeiros da campanha RED de Bono e seus investimentos por meio da empresa de private equity que ele co-fundou são notoriamente opacas. E não é surpresa alguma descobrir que justiça tributária está ausente nas questões globais identificadas pela ONE.

Há uma história conhecida que afirma que, em um concerto em Glasgow, Bono começou aplaudir lentamente. Ele teria anunciado: “Toda vez que eu bato palmas, uma criança morre na África”. “Ao que alguém na platéia gritou: ‘Então para de fazer isso, porra’.” É um bom conselho, e eu gostaria que ele o seguisse.

Fonte: The Guardian
Tradução livre: pequenaduvida.wordpress.com

2 respostas em “Bono Vox: uma completa fraude?

  1. O que as pessoas ainda não entenderam é que a visão desses defensores dos pobres e abandonados é totalmente primeiro mundista. Quero dizer, a lógica deles é: “defendemos os povos africanos, mas não abrimos mão de lhes vender todo tipo de inutilidades que produzimos por um precinho de brimo”. Se os governos africanos se recusarem a comprar tais produtos são logo acusados de antidemocráticos e sujeitos a golpe de estado.

    • Exatamente, Jafé.
      É infelizmente o que acontece muito nos países do norte da África.
      Grata pelo comentário.

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